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Quarta-feira, Março 18, 2026
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Comissão nacional inicia trabalhos para enfrentar o racismo na Enfermagem

Comissão de Enfrentamento do Racismo na Enfermagem

 

A sede do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) recebeu, nesta terça e quarta (17 e 18/3), a primeira reunião da Comissão Nacional de Enfrentamento ao Racismo na Enfermagem. Composta por especialistas com ampla atuação social, a comissão foi criada dezembro pela decisão Cofen 280/2025 para fortalecer políticas contra a discriminação racial no exercício da profissão.

“É a primeira vez que temos, no Cofen, um espaço para avançar no enfrentamento do racismo estrutural. Somos a maioria das técnicas e auxiliares de Enfermagem, grupo que sofre maior opressão dentro das unidades. É muito importante termos uma comissão que tem essa interlocução direta com a diretoria do Cofen. Precisamos mudar o olhar das instituições sobre as estruturas que perpetuam o racismo”, afirma a coordenadora da comissão, Nádia Ramalho.

Nádia destaca a importância de reunir dados para entender e enfrentar as desigualdades. Desde 2021, resolução do Cofen prevê a inclusão de dados sobre raça/cor na emissão de documentos profissionais. 

“Essa inclusão partiu de um questionamento do Rio Grande do Sul. Mesmo invisibilizados, somos resistência”, conta Bia Soares, conselheira do Coren-RS e integrante da comissão, lembrando que os negros são 20% da população gaúcha. “É muito difícil enfrentar aquilo que não vemos com clareza”, pondera.

Racismo e desigualdade salarial

Indicadores salariais da Enfermagem comprovam que raça e gênero são determinantes estruturais de desigualdades na profissão. Estudo coordenado enfermeiro Ricardo Mattos (UERJ) analisou 9.423.711 registros, calculando o tempo necessário para alcançar a mesma remuneração na Enfermagem.

O Relógio dos Privilégios é claro: as mulheres negras são o grupo em maior desvantagem salarial. Para alcançar o mesmo rendimento de 30 horas de trabalho de uma mulher negra, homens brancos precisam trabalhar 23 horas e 18 minutos. Mulheres brancas precisam trabalhar 24 horas e 40 minutos. Homens negros, por sua vez, precisam de 27 horas e 44 minutos de trabalho para obter os mesmos rendimentos.

O valor dado ao tempo de cada pessoa reflete desigualdades que vão além dos números, que se refletem nas relações sociais estabelecidas e nas condições de vida. “Somos uma categoria formada sobretudo por mulheres, e mulheres negras, afetadas diretamente pelo racismo. Os efeitos são sistêmicos”, afirma Bia Soares, conselheira do Coren-RS e integrante da Comissão.

Racismo adoece

Bia Soares destaca que Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho coloca no centro das relações trabalhistas a Saúde Mental, ampliando a responsabilidade dos empregadores na proteção do ambiente de trabalho. Riscos associados ao trabalho, como estresse, assédio e sobrecarga mental, precisam ser identificados e gerenciados pelos empregadores, que devem comprovar ação de medidas para proteger a saúde mental da equipe. “O racismo adoece, tem impacto direto nas relações de trabalho e no adoecimento mental”, afirma a enfermeira gaúcha.

Alva Almeida, doutora pela USP e uma das criadoras na Articulação Nacional de Enfermagem Negra (ANEN), lembra que o racismo perpassa relações com pacientes, chefias e até colegas de trabalho. A sondagem Racismo e Discriminação na Enfermagem, realizada pela ANEN em parceria com o Coren-SP em 2021, indica que a maioria dos profissionais em São Paulo testemunhou episódios de racismo no trabalho. 55,9% das situações de racismo relatadas partiram de pacientes/usuários, 46,6% de colegas de equipe e 43,8% de chefias — pesquisa permitia que cada participante assinalasse mais de uma opção.

A comissão é composta, ainda, pela vice-presidente do Coren-RJ, Rosemere da Silva, e por Anderson Oliveira, conselheiro do Coren-BA.

 

Fonte: Ascom/Cofen – Clara Fagundes

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