A partir de uma pesquisa liderada por algumas das principais faculdades públicas de Enfermagem, o Ministério da Saúde tem em mãos a Demografia da Enfermagem, talvez o mais robusto trabalho de mapeamento de dados já realizado sobre a categoria.
Professor do Instituto de Medicina Social da UERJ e um dos coordenadores do estudo, Mario Roberto Dal Poz concedeu detalhada entrevista ao Outra Saúde, na qual analisa as principais características desta que é uma das mais numerosas categorias de trabalhadores do Brasil e a maior do SUS. E a situação é preocupante.
“O quadro mostrado pela pesquisa é de múltiplos empregos, com remuneração bastante baixa. Só isso já tem um impacto enorme nas condições de vida e saúde da enfermagem. Por menor que seja a carga horária, está se substituindo horas de descanso por outro emprego. Isso já é um fator de adoecimento”, afirmou Dal Poz.
Dividida em dezenas de tópicos de interesse, a Demografia da Enfermagem colheu dados secundários, isto é, de pesquisa de institutos oficiais, como o IBGE, a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Caged (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), dentro do período de uma década: 2011-2021.
Como explicou Dal Poz, que trabalhou na coordenação de recursos humanos da OMS entre 2002 e 2012, trata-se de um passo inicial para pesquisa qualitativas, isto é, com entrevistas e dados colhidos em primeira mão de tais profissionais, esforço que já foi iniciado. Para ele, os dados da Demografia dão argumento sólido e bem direcionado a respeito do aumento de investimentos públicos no SUS, bandeira de todo o movimento social de saúde que certamente reaparecerá nas eleições.
“A ênfase na atenção primária é crucial para assegurar o acesso universal. Observam-se esforços de expansão na Região Nordeste, a qual registrou o maior aumento absoluto de postos nesse nível, e na Região Norte, onde houve um crescimento percentual significativo. Iniciativas como a Estratégia Saúde da Família precisam ser ampliadas para expandir a abrangência do atendimento”, disse.
De toda forma, os resultados levantados na pesquisa são eloquentes a respeito da precarização, exaustão, aumento de afastamento e burnout. A isso, somam-se desigualdades históricas de distribuição regional de profissionais e salários. Mais uma vez, mulheres negras e pardas ficam na base da pirâmide. Como assumido na conclusão da pesquisa, a pandemia agravou o quadro de estresse. Não à toa, lutas sociais do setor, como o piso salarial e a jornada de 30 horas semanais, eclodiram nos últimos anos.
“Pode-se dizer que a pandemia acelerou alguns elementos que fazem parte da estrutura do mercado de trabalho na enfermagem. O segundo ponto é o fato de ser uma profissão que lida com circunstâncias de estresse, mudança do perfil epidemiológico dos pacientes e dos hospitais. Ainda não tivemos acesso aos dados do INSS, mas está nítido que há um aumento enorme de burnout e até de uso ou abuso de medicamentos psicofármacos”, sintetizou Dal Poz, que coordena outras pesquisas sobre a situação de profissionais da saúde ainda não concluídas.
A formação profissional também é analisada como aspecto sensível. A Demografia constatou uma dinâmica semelhante à captada pelo Exame Nacional de Medicina (Enamed): uma expansão de vagas e profissionais muito concentrada no mercado. Com a diferença de que o ensino à distância é permitido e chega a formar a maioria dos alunos, o que pode gerar sérios danos futuros.
“Enquanto a rede pública e os cursos presenciais tendem a seguir padrões mais rigorosos de integração ensino-serviço, a expansão acelerada no setor privado via EAD cria um contingente de profissionais com formação considerada insuficiente pelas entidades de classe e especialistas, o que pode dificultar sua absorção ou desempenho em postos de trabalho que exigem alta densidade tecnológica e clínica”, denuncia Dal Poz.
A enfermagem ocupa papel central nos sistemas de saúde e sua gestão. A criação recente da Política Nacional de Cuidados, que amplifica o conceito para além de serviços médicos, e da Política Nacional de Cuidados Paliativos mostra que o próprio Estado absorve a noção de que a demanda por serviços ligados à saúde está em ascensão.
Para Dal Poz, o poder público conta com um valioso instrumento para elaborar iniciativas de promoção do direito à saúde e bem estar social, tanto para usuários como aos próprios profissionais do ramo. E a ampliação de investimentos públicos neste sentido é urgente.
“A Demografia coloca evidências na mesa dos gestores, dos políticos, dos decisores e contribui para o debate dessas condições não só injustas, mas que tornam o sistema de saúde insustentável e ineficiente. Se as pessoas estão submetidas a condições de trabalho muito estressantes, com perda de horas de repouso, terão menos condições de tomar decisões técnicas adequadas”, concluiu.
Leia, no Outras Palavras, a entrevista completa com Mario Roberto Dal Poz
o, o mercado de trabalho, suporte técnico, saúde mental, remuneração.
Fonte: Outra Saúde – Gabriel Brito



