Publicada em 8 de janeiro de 2026
Por Jorge Henrique, presidente do SindEnfermeiro DF
O ano de 2026 chegou e com ele as piores previsões para a saúde pública do Distrito Federal começaram a se realizar. Na política pública, votos de esperança e otimismo para o ano vindouro não garantem assistência em saúde para a população. A saúde depende de uma política forte de financiamento para ampliar o acesso e garantir atendimento. Do contrário, corte no orçamento e desinvestimento podem causar desassistência e mortes evitáveis.
No final do ano de 2025, acompanhamos a crise financeira do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) devido a falta de repasses da Secretaria de Saúde do DF. O governo do DF deixou de transferir R$ 79,5 milhões nos meses de outubro, novembro e dezembro. Somados a uma dívida anterior de R$ 38,6 milhões, o hospital passou a ter um prejuízo de R$ 118,1 milhões em suas contas.
Uma das medidas adotadas pela direção do HCB foi bloquear 24 leitos de Unidade de Terapia Intensiva e 65 leitos de internação (89 leitos no total), descontinuando e comprometendo o atendimento a pacientes internados, com câncer ou outro quadro de saúde mais grave. Por todos esses problemas, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou, no início desta semana, o repasse do GDF de R$ R$ 69 milhões ao Hospital.
Não é novidade que, desde o início do seu governo, Ibaneis Rocha vem promovendo constrangimentos à saúde, reduzindo sistematicamente o investimento em ações e serviços públicos. Em 2025, com base no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PL Nº 1937), o governo aplicou em ações e serviços de saúde um percentual de 12,11% das receitas correntes líquidas, abaixo do valor mínimo constitucional que é de 13,13%. É importante lembrar que em 2015 (10 anos atrás), o GDF aplicou o maior percentual de suas receitas em saúde, atingido 21,29% de suas receitas.

O governo Ibaneis se vale do aumento anual do Fundo Constitucional, repassado pela União, para reduzir sistematicamento o investimento do próprio orçamento do DF para a saúde. Mas para esse ano o governo aprovou lei orçamentária reduzindo a despesa do Fundo Constitucional na saúde em R$ 1,1 bilhão. Esse corte no orçamento para 2026 soma-se aos R$ 500 milhões que foram contingenciados no ano de 2025. Isso aponta para uma política de restrição orçamentária e estrangulamento das ações e serviços de saúde.
À medida que o governo foi desinvestindo na área, foi ampliando de forma coordenada e continua a política de terceirização na saúde iniciada em 2019 com a criação do IGESDF. Hoje, são aproximadamente 60 serviços assistenciais terceirizados nas diversas áreas como UTI, cardiologia, nefrologia, anestesiologia, pediatria, cirurgias eletivas dentre outras. É impossível organizar e operacionalizar uma rede assistencial em saúde com essa quantidade de serviços terceirizados.
Hoje, as terceirizações são um dos principais mecanismos de entrega do patrimônio público para o setor privado. Além de a transferência de verba pública para prestadores de serviços reduzir o investimento direto nos serviços geridos pela SES, o que temos visto nos telejornais são operações policiais frequentes para investigar esquemas de corrupção no IGESDF. São mais de R$ 2 bilhões investidos no instituto sem resultados concretos e sem transparência.
O fato é que os últimos 2 anos foram marcados por profundas crises na rede assistencial. Foram aproximadamente 450 mortes por dengue em 2024, além de mortes evitáveis de crianças por doenças respiratórias causadas por bronqueolite. Ademais, faltam médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, especialistas dentre outros servidores na SES. O déficit atual na rede assistencial é de 25 mil servidores. Ou seja, um número que é incompatível com a assistência de qualidade à população.
Como se não fosse suficiente os seguidos cortes devido ao projeto deliberado de sucateamento do governo, a crise da saúde vai ganhar outros contornos com o escândalo do Banco Master. Ibaneis Rocha insistiu em comprar um banco falido, foi impedido pelo banco central, mas mesmo assim deu ordens para que o banco de Brasília (BRB) investisse R$ 16 bilhões em ações em um esquema de fraude financeira envolvendo empresas de fachada.
O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, disse ao STF que Ibaneis estava ciente de toda a operação com o banco máster. Em sua oitiva, revelou que parte desse dinheiro não será recuperado pelo BRB. Além do risco patrimonial e financeiro devido a perda de confiança de investidores e a desvalorização de ativos, o uso indevido de recursos públicos vai transferir os prejuízos para áreas essenciais como a saúde.
O governo já começou o ano com dificuldades para honrar os contratos com prestadores de serviços. Esta semana, Ibaneis fez declaração afirmando que vai apertar os cintos e cortar gastos devido à queda na arrecadação. O que Ibaneis não fala é que devido às perdas financeiras com o investimento de dinheiro público no esquema de fraude financeira com o banco máster o governo adquiriu um rombo no orçamento e vai precisar fazer mais cortes e contingenciamentos.
Se em 2025 a saúde estava na UTI, enfrentando cortes e contingenciamento, sofrendo com falta de profissionais, sobrecarga extrema de trabalho, fechamento de leitos, interrupção de serviços e prejuízos aos diretos à população, em 2026 corre risco de colapsar. Se o desfinanciamento não for revertido e o governo não priorizar os investimentos na área, ao invés de votos de otimismo e esperança, será necessário um réquiem para a saúde pública.
Infelizmente já conhecemos o script desse governo. Ibaneis já escolheu cortar o orçamento da saúde, aprofundar terceirizações, manter o déficit de 25 mil servidores sem novas nomeações, e ignorar as demandas dos servidores por reestruturação das carreiras, melhorias na infraestrutura e condições dignas de trabalho.

Em 2026, o desafio central será enfrentar e reverter o desmonte da saúde pública no DF. É fundamental recompor o orçamento da Saúde, realizar concursos públicos, garantir condições dignas de trabalho e assegurar a valorização salarial dos profissionais de enfermagem e de outras carreiras, que sustentam o funcionamento da rede.
Será um ano decisivo de disputa política e social. O Sindenfermeiro seguirá mobilizado, se opondo à política de desmonte e terceirização de Ibaneis Rocha, e defendendo um SUS público, universal e de qualidade. Não há como melhorar o atendimento sem investir em quem cuida. A expectativa é que 2026 seja um ano de resistência, organização e luta por mudanças estruturais na política de saúde do Distrito Federal.


